Em entrevista concedida em 2015, o psiquiatra chileno Claudio Naranjo mostrou-se polêmico: “a educação atual produz zumbis”, querendo dizer, entre outros aspectos, que chegamos ao século XXI sem enfatizar o autoconhecimento, a afetividade e outras dimensões do desenvolvimento integral dos alunos como essenciais nos processos educacionais. Trata-se, segundo o autor, de “um sistema que quer um rebanho para robotizar. A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante, e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas.”

De fato, há algumas décadas, havia a hipótese de que o papel da escola se relacionava, apenas, ao ensino de competências vinculadas ao desenvolvimento intelectual e acadêmico dos alunos. Dessa maneira, tanto em relação aos conteúdos ministrados, quanto à interação professor/alunos em si, pouca ou nenhuma atenção era dada a habilidades referentes, por exemplo, ao reconhecimento das emoções que se revelam no contexto escolar e no convívio em sociedade.

Embora estudiosos clássicos da área da Educação, tais como Vygotsky, Piaget e Wallon, tenham apontado, há muito tempo, a importância de se considerar os aspectos afetivos, bem como aqueles relacionados às interações sociais no processo de aprendizagem dos alunos e na sua própria socialização, não havia uma sistematização dessas recomendações em forma de documentos oficiais, por exemplo, que orientassem as instituições de ensino a respeito dessas questões.

A educação integral na BNCC

Hoje, felizmente, após inúmeros estudos científicos que comprovam a necessidade das escolas incorporarem as competências socioemocionais em seu currículo, contamos com o novo documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prevê uma visão integral do desenvolvimento do aluno, como verificamos na Competência Geral de número 9: “Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos (...)”.

A BNCC, dessa forma, também ressalta a necessidade da educação integral do ser humano, não no sentido de “tempo integral” de permanência na escola, mas do seu desenvolvimento em todas as suas dimensões: intelectual, afetiva, social e física.

No entanto, não basta que esses documentos sejam homologados. Surge, agora, o desafio maior das instituições escolares, sejam elas públicas ou privadas: promover, na prática, a educação integral, considerando a aprendizagem das competências socioemocionais nesse processo.

Nessa direção, as escolas que incorporam programas e metodologias de educação emocional e social consistentes em seu currículo saem na frente quando se tem por objetivo a formação multidimensional dos alunos que, como consequência, tornam-se cidadãos mais bem preparados para enfrentar os desafios da sociedade pós-moderna, lidam melhor com suas próprias emoções e com as dos outros e, paralelamente, apresentam mais sucesso, inclusive, em seu desempenho acadêmico geral.

Fonte: Inteligência Relacional